Introdução
Você muito provavelmente já ouviu dizer que os brasileiros não leem ou até que não gostam de ler, com algumas pessoas chegando a afirmar que a baixa adesão ao hábito da leitura pela população em geral é resultado de mera preguiça. De fato, 2024 marcou a primeira vez dentro de quase 20 anos em que mais da metade da população brasileira não leu nenhum livro, os leitores ativos representando apenas 47% da população em geral. Mas será que realmente esse resultado foi causado puramente por uma falta de interesse do público? Será que não houve mais nenhum outro fator responsável pela diminuição de leitores?
Quando essas ideias são tomadas como verdades absolutas, uma imagem de desinteresse e descaso com a literatura é propagada sobre a população brasileira, algo que não só influencia na diminuição ao incentivo à leitura, como também impossibilita discussões acerca dos diversos fatores que afetam o desenvolvimento e manutenção do hábito da leitura.
Apoiando-se fortemente nos dados coletados pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024 com 5504 entrevistados, o seguinte blog desenvolve-se justamente com o objetivo de esclarecer esses questionamentos, contando com a estatística para comprovar ou não as hipóteses iniciais e assim entender por meio de dados concretos o que influencia os hábitos de leitura no Brasil.
Contexto Social e Econômico
Em um país onde o custo de vida médio alcança R$3.520, temos que mais de um terço da população brasileira recebe até um salário mínimo, valor que não cobre nem metade desse custo de vida, algo que tem impacto direto nas despesas essenciais. Entre elas, gastos com compras de supermercado, contas recorrentes e moradia são responsáveis por consumir 57% do orçamento total da população.
Para visualizar mais a fundo como possuir uma renda familiar baixa impacta fortemente na formação de leitores, analisamos a porcentagem de pessoas que leram um livro, seja em partes ou completo, nos últimos três meses segundo a quantidade de salários mínimos com a qual ela vive:

O gráfico aponta para a forma em que entre as pessoas que recebem até um salário mínimo apenas 39% delas são leitores, a menor tendência entre os grupos analisados. Em contrapartida, a maior tendência de leitores encontra-se entre a população que possui renda de 5 a 10 salários mínimos, a qual conta com 24% a mais de leitores do que a menor faixa de renda, a presença de leitores mantendo-se alta conforme a renda aumenta.
Também vale destacar como o nível de instrução do indivíduo influencia na sua renda mensal. Segundo o IBGE, entre os mais de 200 milhões de brasileiros, 32% não receberam nenhuma instrução ou possuem ensino fundamental incompleto, enquanto apenas 17% alcançaram ensino superior completo.
O reflexo dessas discrepâncias podem ser vistos diretamente no gráfico a seguir, o qual explora como os diferentes níveis de instrução afetam a renda média da população:

O crescimento da renda média acompanha o nível de instrução, com o salto entre os R$1.680 recebidos por pessoas sem instrução formal para os R$6.957 recebidos por indivíduos com o ensino superior completo ressaltando as diferenças e eventuais impactos sobre a qualidade de vida e poder de compra entre pessoas com diferentes níveis de formação.
Cenário Literário Brasileiro
Agora que entendemos um pouco mais sobre a formação social do Brasil e como diferentes fatores influenciam na construção do hábito da leitura, devemos explorar mais a fundo como é o cenário literário para os brasileiros. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, entre as principais motivações dos leitores para ler estão gosto, distração e obtenção de conhecimentos gerais, sendo que 75% apontou desejar ter lido mais, a falta de tempo sendo indicada como o principal impeditivo para que a leitura não fosse realizada tanto quanto gostaria.
Com o gosto pela leitura já estabelecido como principal motivador, obtemos que 57% dos leitores possuem preferência por livros de papel e que mesmo com a aquisição desses livros sendo especialmente através da compra de exemplares em lojas físicas e pela internet, apenas 19% dos entrevistados comprou algum livro nos últimos 3 meses.
O seguinte gráfico aborda justamente as diferenças entre pessoas que compraram e não compraram livros nos últimos três meses considerando a quantidade de salários mínimos recebidos:

Ao relembrar como um terço da população sobrevive apenas com um salário mínimo no máximo, o preço médio dos livros físicos encontrar-se em R$53,25 ajuda a compreender a baixa frequência de aquisição de exemplares, algo que influencia diretamente na construção do hábito de leitura entre os brasileiros. O gráfico anterior reafirma a tendência de que quanto maior a renda, maior a propensão a adquirir livros rotineiramente, enquanto que o fato da diferença entre compradores e não compradores no grupo que recebe mais de 10 salários mínimos ser de apenas 22%, ao passo que o grupo vivendo com até um salário mínimo apresentar 74% de diferença entre compradores e não compradores escancara o quanto o valor dos livros afeta a dispersão do hábito da leitura entre pessoas de diferentes rendas.
O atual estado das bibliotecas brasileiras, as quais em um primeiro momento poderiam ser apontadas como uma alternativa para contornar os altos preços, também deve ser mencionado. O seguinte gráfico traz como a presença de bibliotecas públicas mudou de 2007 a 2024:

Em um espaço de 17 anos, o Brasil perdeu cerca de 22% das suas bibliotecas públicas, sendo que quase metade dos atuais usuários utilizam aquelas associadas a ambientes escolares e universitários. Dessa forma, com as principais bibliotecas concentradas em instituições de ensino, a disponibilidade de acesso à população em geral passa a ser reduzida.
Entre 2019 e 2024, sob possível influência da pandemia do Covid-19, a parcela de pessoas que não frequentaram a biblioteca aumentou em 7%, com distância da moradia e títulos antigos nos acervos sendo apontados como os principais fatores para a baixa procura por esses espaços.
Apesar do número reduzido de usuários, as bibliotecas remanescentes são bem avaliadas por aqueles que as visitam. O bom estado de conservação e o atendimento agradável por parte dos profissionais bibliotecários e demais funcionários é indicado por mais de 80% dos visitantes, além de mais da metade mencionar encontrar obras de seu interesse.
Contornando Limitações
Enquanto os altos preços em exemplares levam a população em geral a priorizar gastos essenciais, leitores buscam alternativas mais acessíveis para a manutenção de seus hábitos. O consumo de livros digitais, conhecidos também como e-books, vem crescendo consideravelmente, a pesquisa Leitores Digitais apontando que 49% da população brasileira acima de 10 anos consome livros, notícias, histórias seriadas, entre outros conteúdos do mesmo ramo de maneira digital, os celulares em específico sendo a principal forma de acesso a livros digitais.
Após passarem a ler e-books, 43% dos leitores afirmaram que a frequência com que leem aumentou. Entre as diversas maneiras de adquirir livros digitais, quase metade dos leitores utilizam o download ou acesso gratuito pela internet para conseguir exemplares. A preferência por e-books foi associada à condição financeira por 29% dos entrevistados, com 18% dos usuários digitais possuindo renda familiar de até dois salários mínimos.
Vale destacar que apesar do celular ser o principal dispositivo usado para acessar e-books, devido principalmente a uma maior facilidade de acesso e transporte dos livros, limitações associadas a esse meio também são apontadas. Leitores destacam a interrupção da leitura com mais frequência para conferir mensagens e dificuldades de concentração maiores quando leem livros digitais no celular.
Uma outra alternativa visando evitar os altos preços dos livros físicos é a participação em eventos literários, como por exemplo a Bienal do Livro e a Festa Literária das Periferias (FLUP). Entre as pessoas que participaram da Bienal 2022, a motivação de 72% delas para comparecer ao evento foram os preços diferentes dos vistos normalmente no mercado e, apesar da classe econômica B conter 58% dos participantes do evento, mais de dois terços dos participantes da FLUP 2019 foram das classes C, D e E, destacando o maior alcance e acessibilidade do evento.
Eventos literários naturalmente reúnem uma gama de leitores maior do que a vista na população em geral considerando o enfoque específico dado a esse público, o mesmo representando mais de 90% dos participantes. Com isso, os costumes e práticas literárias são diferentes dos vistos no Brasil de forma ampla. Por exemplo, a quantidade média de livros lidos inteiros ou parcialmente dentro de três meses entre os participantes da Bienal 2022 e da FLUP 2019 são respectivamente, 7 e 7,9, valores estes mais de três vezes maiores do que a quantia lida pela população em geral, a qual encontra-se em uma média de 2,04.
Conclusão
Com os altos preços em livros, a realidade de grande parte da população brasileira muitas vezes não comporta o investimento exigido para desenvolver o hábito da leitura, a condição financeira impactando diretamente na construção de novos leitores. O crescimento dos livros digitais como alternativa mais acessível se mostra um importante passo para a formação de novos leitores. Sendo assim, a ideia inicial de que a falta de interesse seria o principal motivador para a baixa quantia de leitores não se comprova.
A veracidade das hipóteses iniciais foi testada por meio de uma análise de dados, uma solução muito popular aqui na Estat Júnior, na qual por meio da aplicação da estatística, estudamos o comportamento de dados reais ao analisar variáveis de interesse e traçar correlações entre elas a fim de entender a fundo o que os dados nos dizem e assim conseguir sanar todas as dúvidas dos nossos clientes, os guiando na tomada de decisões estatisticamente comprovadas visando desenvolver da melhor forma seus negócios e pesquisas.
Afinal, uma leitura de qualidade, seja ela dos dados ou dos livros, só pode vir a trazer lucros aos seus leitores.
Autora: Maria Luiza dos Santos de Queiroz